Daniel Vorcaro desviava recursos do Banco Master para si e familiares, em esquema revelado pela Folha de S.Paulo. Entre os beneficiários estão seu pai, irmã, primo Felipe e três parentes de João Mansur, dono da Reag.
Terceira prisão de banqueiro expõe rombo bilionário: como família e aliados do agro sugaram R$ 52 bilhões de poupadores no Banco Master
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A Polícia Federal deu um novo golpe no coração de um dos maiores escândalos financeiros do Brasil com a terceira prisão de Daniel Vorcaro, o ex-controlador do Banco Master, em 4 de março de 2026. Aos 42 anos, Vorcaro assumiu o comando da instituição em 2019, mudando seu nome de Máxima para Master, e transformou o banco em uma máquina de captação de recursos. Milhares de investidores comuns foram atraídos por Certificados de Depósito Bancário com juros acima do mercado, prometendo segurança. No total, mais de R$ 50 bilhões entraram, mas o dinheiro sumiu em um rombo de R$ 52 bilhões, coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos, que protege até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição, incluindo rendimentos.
A investigação da Operação Compliance Zero revelou uma rede familiar que se beneficiou diretamente dos desvios. O pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, ligado a 54 empresas no setor imobiliário, teve uma conta com mais de R$ 2,2 bilhões, incluindo uma transferência de R$ 9 milhões diretamente do banco. A irmã Natalia e o primo Felipe também receberam valores expressivos. A família controlava ainda a Clínica Mais Médico por meio de laranjas com procurações, obtendo R$ 361 milhões em empréstimos sem garantias reais. A defesa de Henrique contesta os dados da PF, alegando que ele não é titular dos recursos.
O esquema ia além da família e alcançava aliados poderosos no agronegócio e no mercado financeiro. Três filhos de João Carlos Mansur, fundador da Reag DTVM, que gerenciava fundos do Master, foram beneficiados com R$ 1,45 bilhão em operações questionáveis. Lucas, Marina e Alex Falbo Mansur aparecem como beneficiários finais desses fundos. Mansur, conhecido no agro paulista e com laços no futebol e investimentos, nega irregularidades e diz que tudo foi legítimo. A Reag também acabou liquidada pelo Banco Central após buscas policiais.
A sofisticação do golpe impressiona. O banco direcionava depósitos para fundos exclusivos, dos quais era o único investidor, e esses emitiam empréstimos fictícios a empresas de fachada ou parceiras. Os recursos voltavam como novos CDBs ou ativos superfaturados, como papéis do falido Banco do Estado de Santa Catarina. De um fundo com R$ 3,5 bilhões, R$ 1,8 bilhão acabou com sócios e familiares. Especializado em financiamentos rurais e para médios empresários em São Paulo, o Master já chamava atenção do Banco Central por riscos excessivos na carteira agropecuária, setor vital para a economia brasileira.
Tudo desabou em novembro de 2025, um dia após a primeira prisão de Vorcaro. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, do Banco Master de Investimento e de outras sete empresas do grupo, como a Will Bank. O prejuízo no FGC ultrapassou R$ 52 bilhões, forçando grandes bancos a injetarem R$ 32,5 bilhões adiantados, o equivalente a cinco anos de contribuições, para estabilizar o fundo e evitar pânico no sistema.
A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, apura obstrução de justiça, corrupção e ameaças. Na terceira fase, autorizada pelo ministro André Mendonça do STF, a PF prendeu quatro pessoas, apreendeu carros de luxo, armas e R$ 97 mil em espécie. Aliados de Vorcaro acessaram ilegalmente sistemas da PF, MPF, FBI e Interpol para vigiar as investigações, com um suposto executor morrendo em custódia após tentativa de suicídio. Vorcaro, que alega ter deixado o banco em 2023 por razões pessoais, está incomunicável enquanto as apurações miram conexões políticas.
O caso escancara fragilidades na supervisão de bancos menores e regionais no Brasil, onde controles mais frouxos permitiram o crescimento rápido do Master. Milhares de poupadores, muitos de classe média, recuperaram parte via FGC, mas quem aplicou acima do limite enfrenta perdas irreparáveis. O escândalo reacende o debate por regras mais duras no sistema financeiro, com foco em transparência e limites a fundos exclusivos, prometendo punições por fraude e lavagem de dinheiro que podem redefinir a confiança no setor bancário brasileiro.